Menino levado, via-te como um velho zangado,

daqueles barbudos, ranzinza, sempre mal humorado.

Que, curvado, andava a carregar o peso do tempo e do céu.

Ao teu redor, via anjos de asas, e em suas cabeças, rodelas de luz.

Estes, com os olhos parados, sempre tristes, olhando para o léu.

Anjinhos chatos e sem graça que, inúteis, Te acompanhavam.

E os capetas do catecismo? Nunca entendi…

Pra que, Senhor, Tu achaste de inventar capetas?

Ardilosos, com a vivacidade dos espertos, andavam a dar-me sustos e fazer caretas.

Pois, capetas serelepes que eram, faziam brincadeiras inapropriadas

a todo tempo. Até na missa, nas horas mais sagradas!

A cada descontentamento ou resposta malcriada que eu dava, cutucavam-me com um palavrão!

Estavam sempre se divertindo!

Pois, na minha imaginação, capeta que se prezava era brincalhão.

Eu, ainda que quieto, não tinha jeito, pecava; nem bem pensava, pecava.

E, no meu peito de criança… um capetinha cutucava.

Vestido de culpa, cheguei a pensar que não gostavas de mim.

Eu, ousado, mesmo temendo ser castigado,

desafiei-te.

Pois bem, se assim é… Vamos aos fatos. Resolvamos, enfim…

E, mesmo sem saber direito qual era meu pecado,

por que raios de motivo tu comigo estavas zangado,

expulsei do meu lado tanto anjos chatos quanto capetas safados…

Clamei por ti!

Gritei por ti!

E, achando que me vias malcriado,

pelo teu silêncio senti-me desprezado…

Então…

indignei-me.

E, imbuído de uma ousadia descabida,

revoltado, chamei-te pra briga.

Vem, se és homem! Quem tu pensas que és? Mostra-te!

Se tu fores mesmo Deus…mata-me agora. Mas não me desprezes.

E Tu, com a Tua divina soberba,

Te Calastes. E, de novo…  me ignoraste.

Busquei, então, os que, à época, diziam conhecer-te mais de perto:

pessoas mais velhas, beatos, padres,

amigos teus de todos os dias,

e, entre dezenas de Credos, Pais Nossos e Ave Marias,

que, de tantas que me mandavam rezar, perdia-me nas contas,

francamente, confesso,

sentia-me um boboca falando às tontas.

Estes teus representantes aqui na terra, cada qual com sua fé carola,

anunciavam castigos gigantes que podiam demorar ou vir agora,

postos e firmados praqueles que, como eu, sem fé, ousavam questionar o estabelecido.

Estes teus sacerdotes… ou que afirmavam serem teus sacerdotes

ensinavam coisas do homem e de sua triste sorte,

num entendimento capenga e combalido,

de que procurar entender o divino era proibido,

e de que o inferno está logo ali, depois da morte.

Outro dia, jovem, vestido de paixões, vi em ti um sofredor,

Estático, seminu na cruz, com a cabeça pendurada de lado

e com o olhar virado, parado, magro e resignado.

Não me servias para herói, pois não reagias, não lutavas.

Por que, Senhor, tu não lutavas?

Sempre conformado, eras chamado, por alguns, de Redentor do pecado.

Mas, a propósito… de que pecado?

Confuso segredo este, a sete chaves guardado.

Ainda diziam que era por amor que te deixavas ser humilhado,

e foi para salvar a mim e a todos nós que tinhas sofrido.

Isto posto, confesso,

não encontrava nexo.

Nunca me ficara bem entendido.

Como? que fiz eu? se nem tinha nascido…?

Talvez novamente, mesmo sem saber, fosse eu de novo o culpado…

Ou seria o não conseguir compreender estas coisas o meu castigo?

E uma vez mais…

contigo estava brigado.

E, zangado, quase sem esperar respostas do teu lado,

ao pé da cruz,

por mais outra vez por ti clamei e perguntei:

Quem és tu, Deus?  Responde-me! Fala comigo!

Nem mesmo um parco gemido escutei…

Só sentia culpa e via teu desânimo, naquele olhar sofrido.

Hoje, homem, nu, despido de dogmas,

sem a roupagem pesada dos falsos interesses que privilegiam as formas,

usando como degraus a criança, o jovem e o próprio homem,

o recorrente e insistente questionamento me vem:

Quem és tu, Deus? Mostra-me.

Senhor…

Unamo-nos.

Tu no Divino, eu no indivíduo,

de mim sou vítima, réu e advogado,

juiz, promotor, carcereiro e jurado,

estou na cruz, no tridente e na lança do soldado,

sinto-me ligado a todos,

aos verdadeiros e aos que inventaram o pecado…

De tudo inocente, somente pela ignorância culpado

E, tão claro quanto esta luz que me ilumina,

quero buscar o superior nesta humana sina.

Então…

num milagre, a voz da inspiração,

que sinto ser divina,

a Mestra Poesia, que pela beleza me ensina,

num íntimo silêncio, responde aos apelos meus:

– Amigo Poeta…

mostrar-te-ei quem é Deus:

Busca conhecer-te.

Revela-te a ti mesmo em teu ser.

Em verdade, em verdade vos digo

o que jamais descobririas no além.

Deus?

Sou tu e estou em ti…

Basta que em ti me procures

e que me queiras ver!

 

 

Wilson Traninn

Auno da Nova Acrópole – Escola de Filosofia à Maneira Clássica – sede Cuiabá

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