Meu Mito

 

Quem és tu? Uma voz indaga mais e mais.

Conjunto de células, horas ou sombras?

És grande ou pequeno? E aonde vais?

 

A resposta vem em mitos que velam e revelam,

não os fatos, mas ocultos movimentos.

Não há fantasia, mas só verdade plena ou vazia,

que em várias formas se ouvirá, como se ouvia.

 

Voz de poetas sempre presentes e ausentes

canta proezas em dilúvios e batalhas

de tantas almas que não temem as muralhas,

apenas lutas vãs ou vidas impotentes.

 

Tempos em tempos, sempre varia a roupagem,

mas afinal, é diferente o personagem?

Conforme a armadura, há distinto nome,

Mas a alma pura é tão igual como um só homem.

 

Seu nome é Ulisses quando

no encalço de doce recanto,

usa a inteligência contra o encanto.

Enfrenta a fúria de um alto-mar,

corrente é a ilusão, carente o amar.

Despido, então, do que é fugaz,

no reino de sua alma encontra a paz.

 

Seu nome é Aquiles quando

ante a brevidade de uma vida longa

e a eternidade de uma vida breve,

opta por morrer na tenra idade.

E em batalha de muitos anos,

como a dos gregos e troianos,

rompe a história rumo à posteridade.

 

Seu nome é Hércules quando

para se redimir da insanidade,

segue os andares da Divindade.

Submete, purifica e, de sorte,

doma até a própria morte.

Para a glória de uma Hera rude,

encontra em si a eterna juventude.

 

Seu nome é Rama quando

por donzela em apuros que grita

persegue o Dharma sob o nome Sita.

Luta com o monstro que lhe é destinado

enquanto seu Eu lhe é ignorado:

Nasceu como homem para vencer,

e um grande Deus então, virá a ser.

 

Seu nome é Arjuna quando

hesitante fica entre paixões pobres

e luta no comando de irmãos nobres.

Mas pelo bem da mais pura Haste

ousa matar o que lhe traz desgaste.

Segue o Mestre para vencer o inimigo,

na mais sublime batalha do eu-consigo.

 

Seu nome histórico não é mais soberano

que o despertar, EM SEU NOME, o Eu-Humano.

Seja esse ou aquele outro Herói,

não se detém e nossa trilha ele constrói.

Possui, no cumprimento da missão,

nossa divina e feliz coroação.

 

Esse é o mistério que dá sentido às Leis,

que é mais que história de damas e reis.

É a voz que canta a verdade universal,

em mitos… que são nosso Mito, afinal.

 

Júlia Camarotti

Nova Acrópole Sede Nacional

***

AOS PROMETEUS, FILHOS DO SOL

 

Conta a lenda que existia um Grande Rei, radiante Sol,

Um rei e seus sete filhos reinam no país do Sol.

Um dos filhos vê que há outros irmãos, além dos seus,

De um país pobre e sofrido, sem ter sol ou qualquer deus.

 

Terra árida, prisão, rio seco e escuridão,

Segue o príncipe a buscar ver estes homens, onde estão?

E, bem ao longe, aos farrapos, vê sua triste condição!

Vê só homens enganados na mais pura ilusão.

 

Não têm fogo ou lavram a terra, estão sós e abandonados.

Sem escolha, luz, verdade, sem o fogo, encarcerados!

Com seu amor e piedade, uma ideia ele carrega

Volta a casa e, sem que saibam, rouba o fogo e lhes entrega.

 

Uma tríade de irmãos conduz o fogo ao país frio,

Homens novos vão surgindo entre aquele desvario.

Mas o Rei absoluto, grande Sol, descobre a trama,

E a sentença de banir aos prometeus ele proclama.

 

A Rainha, grande mãe, já roga ao Sol o seu perdão.

Cede o Rei ao seu apelo, mas com uma condição,

Voltam a ser um dia príncipes, se o Rei vir confirmado

Ser igual aos seus três filhos, um dos beneficiados

 

Passa o tempo, morrem os príncipes, transcorrem gerações.

Mas a lenda é passada e um sonho se impõe,

Um de nós, já transmutado pelo Fogo, em forma nova,

Frente ao Rei tão poderoso, há de apresentar a prova.

 

É contada a velha história, mais bela das tradições,

E eis que nasce, enfim, um nobre que aceita as condições.

Sê bem vindo, homem nobre, segue em frente em tua missão,

Redimir antepassados, com grandeza e gratidão.

 

A notícia corre longe, e o Rei Sol, Iluminado,

Ordena, firme e zeloso, a imediata execução.

E a Rainha lhe recorda sua promessa e condição:

ver se o jovem invasor é nobre como os desterrados

 

Em sua forma decidida, entra o jovem no salão.

A imagem refletida, como uma antiga canção,

Lembra o jovem corajoso que, com grande retidão,

Vem de longe em sacrifício exigir o seu perdão.

 

Os três príncipes ressurgem, há uma  nuvem em seu entorno.

E o rei, sempre sagrado, concede o grande retorno.

Eis os que eram condenados, os três príncipes perfeitos

E o fogo, antes roubado, é nosso, agora, por direito.

 

Esta é a história de homens e de um Budha glorioso

Que conhece a Prometeu e espelha em terra o grande Deus.

Para nós, seres humanos, é prova de amor ao mundo

E entender tão belo mito é provar do amor profundo.

 

 Núbia Lacerda (com participação especial de LHG)

Nova Acrópole Sede Nacional

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