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A MISSÃO DO POETA

 

Musa
Vês, meu poeta, em torno estas colinas,
Como tronos gentis da primavera?
Abrem-se ali as pálidas boninas,
E em volta dos cipós se enrosca a hera!
É o sol-posto. — A folha, o mar, e o vento,
Tudo murmura de saudade um hino.
Vem sonhar neste morno isolamento.
E dormir no meu seio peregrino!

Poeta
Vemos, sim! — Esta noite o luar saudoso
Há de tremer nestas folhagens belas.
Tão só vegeto! — O alaúde ansioso
Vem enfeitar de angélicas capelas!
Pousa-me a fronte em tuas mãos celestes…
Mas é uma ilusão… cruel mentira!
Hei de ao soar do vento nos ciprestes
Erguer num canto as vibrações da lira…

Musa
Sofrer, qu’importa? — Vem! Morrem as dores
Da solidão nos recônditos mistérios!
Nascem à bordo do sepulcro as flores,
E beija o sol o pó dos cemitérios.

Poeta
Eu sofro tanto! — Perenais espinhos
Orlam-me a estrada…. A sepultura é perto!
E nem o doce aroma dos carinhos…
Meu Deus! Nem uma flor neste deserto!
E quantos desta doida caravana
Estorceu no areal uma agonia,
Esperando debalde em noite insana
Verem realizar-se uma utopia!

E como crer então? Tenho aqui morta
Uma ilusão de minha primavera…
O sonho é como um feto que se aborta,
Um porvir que se ergueu numa quimera!

A realidade é fria. Erga-se embora
A flor do coração a um céu dourado,
Vem a turba maldita em negra hora,
E as flores mata de um porvir sonhado!

Musa
Por que descrer assim? — É dura a estrada,
Mas há no termo muito amor celeste,
A glória, poeta, é uma flor dourada,
Que só nasce da rama do cipreste.

Poeta
De um cipreste!… É bem triste esse conforto!
Quem sabe? uma esperança mal cabida.
Essa luz que se vaza sobre o morto
Paga-lhe a dor que o sufocara em vida?

Musa
Mas é tua missão,… Do pesadelo
Hás de acordar radiante de alegria!
Deus pôs na lira do infortúnio o selo,
Mas há de dar-lhe muita glória, um dia!

É forçoso sofrer… Deus no futuro
Guarda-te a c’roa de uma glória santa,
Vem sonhar, este céu é calmo e puro!
Vem, é tua missão!… Ergue-te e canta!

 

Machado de Assis

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