Homenagem ao Dia dos Pais

 

Em homenagem ao Dia dos Pais, o Acrópole Poética traz estes belos versos de Rudyard Kipling – ensinamentos cheios de valor de um pai para seu filho – acompanhados por belíssimas obras de Daniel Gerhartz:

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Se

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

 

Rudyard Kipling

 

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Ser ou Não Ser?

 

 

Ser ou não ser, eis a questão.
O que é mais nobre? Sofrer na alma
As flechas da fortuna ultrajante
Ou pegar em armas contra um mar de dores
Pondo-lhes um fim? Morrer, dormir
Nada mais; e por via do sono pôr ponto final
Aos males do coração e aos mil acidentes naturais
De que a carne é herdeira, num desenlace
Devotadamente desejado. Morrer! Dormir; dormir
Dormir, sonhar talvez: mas aqui está o ponto de interrogação;
Porque no sono da morte, que sonhos podem assaltar-nos
Uma vez fora da confusão da vida?
É isso que nos obriga a reflectir: é esse respeito
Que nos faz suportar por tanto tempo uma vida de agruras.
Pois quem suportaria as chicotadas e o escárnio do tempo
As injustiças do opressor, as afrontas dos orgulhosos,
A tortura do amor desprezado, as demoras da lei,
A insolência do oficial e os pontapés
Que o paciente mérito recebe do incompetente
Quando o próprio poderia gozar da quietude
Dada pela ponta de um punhal? Quem tais fardos suportaria
Preferindo gemer e suar sob o peso de uma vida fatigante
A não pelo medo de algo depois da morte
Esse país desconhecido de cujos campos
Nenhum viajante retornou, e que nos baralha a vontade
E nos faz suportar os males que temos
Em vez de voar para o que não conhecemos?
Assim a consciência nos faz a todos cobardes
E assim as cores nascentes da resolução
Empalidecem perante o frouxo clarão do pensamento
E os planos de grande alcance e actualidade
Por via desta perspectiva mudam de sentido
E saem do reino da acção.

William Shakespeare, “Hamlet”

A Apolo

apolo

 

A Apolo

Pressinto em mim o emergir de Delos,
sagrada ilha flutuante
a quem nenhuma corrente
logrou reter, em seus elos…

Poseidon, do Oceano Profundo,
Soberano das águas do mundo,
permitiu que ela em mim aflorasse,
concedeu-a como fosse um dom.

Minha Alma, Delos, veio à tona…
Coração por trás do coração,
vibração que ao terrestre impulsiona,
e que o Deus, em mim, leva à ação.

As dores de Leto, à palmeira enlaçada,
são sinais da Luz que aspira a nascer…
Em Delos, o Deus anuncia a chegada,
das dores mais árduas, o parto do Ser…

Mas eis que Hera sempre exige a espera:
pois o protocolo da Deusa,
severa mãe de todo Herói,
mil provas enumera antes do fim…
Pequenas provas ante o herói do mito,
mas quase um infinito para mim…

Enquanto o nascimento não se opera,
sonho com a luz do Hiperbóreo, que virá,
sonho com o Templo que Ele erguerá,
tornando Delos terra nobre e sagrada,
ponto central de todas energias,
ponto final de todas caminhadas.

A Serpente que me ronda, incansável,
Grandiosa Píton, será submetida…
Ante a Luz, de fugaz, será estável,
E os seus vapores serão
para sempre, desde então,
fonte de inspiração em minha vida.

E quando o Deus se afastar,
navegando nos céus, a migrar
às distantes terras frias,
ao Seu lado, de um outro calor vou provar.
E quando Ele voltar, em seu Cisne Solar,
cálida, a Alma emprestará calor ao Dia…

E dançarei com as Musas no Helicon,
e a voz do Deus desdobrar-se-à em sons,
numa espiral de harmonia, rumo as céus,
E, em Castália, baixarei meus véus
e aplacarei a sede da minha alma
ouvindo as vibrações da Voz do Deus.

Tudo isso serei eu, quando, cumpridos
todos os justos desígnios de Hera,
tiver findado a dolorosa espera…
Vencido o algoz, as trevas da ilusão,
concluído o rito em Delos-coração,
virá à luz, em mim, o amado Deus…

E, como proclamado desde as eras,
o tempo explodirá em primaveras…

Profª: Lucia Helena Galvão

Foto: Leandro Moraes

Poesia Sufi – Rumi

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Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Não durmas,
senta com teus pares

A escuridão oculta a água da vida.
Não te apresses, vasculha o escuro.
Os viajantes noturnos estão plenos de luz;
não te afastes pois da companhia de teus pares.

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.

Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.

Eros e Psique

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Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão , e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

“Alegra-te”

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Alegra-te

 

Se tu és pequeno, alegra-te,

para que tua pequenez sirva de contraste

a outros no universo, porque essa pequenez

constitui a razão essencial da tua grandeza,

porque para ser grande,

há necessidade que tu sejas pequeno,

como a montanha para crescer,

necessita subir entre as colinas, lombas e os morros.

Se és grande, alegra-te,

porque o invisível se manifestou em ti

de maneira mais excelente,

porque és um êxito do artista eterno.

Se és saudável, alegra-te,

Porque em ti as forças da natureza

Tem chegado à ponderação e à harmonia.

Se é enfermo, alegra-te,

porque lutam em teu organismo

forças contrárias que acaso buscam

uma resultante de beleza,

porque em ti se ensaia esse divino alquimista

que se chama dor.

Se és rico, alegra-te,

Por toda a força que o destino

Tem posto em tuas mãos

Para que a derrames…

Se pé pobre, alegra-te,

porque tuas asas serão mais ligeiras

porque a vida te sujeitará menos,

porque o Pai realizará em ti

mais diretamente que no rico

o amável prodígio do pão cotidiano.

Alegra-te, se amas;

por que serás mais semelhante a Deus que os outros.

Alegra-te, se és amado;

porque há nisso

uma predestinação maravilhosa.

Alegra-te se és pequeno;
alegra-te se és grande;
alegra-te se tens saúde;
alegra-te se a perdeste;
alegra-te se és rico;
se és pobre alegra-te;
alegra-te se te amam;
se amas alegra-te.
Alegra-te sempre, sempre, sempre.

 
(Amado Nervo)

“Ode à Alegria” – Friedrich Schiller

Você sabia que a a letra da música presente na 9ª Sinfonia de Beethoven é na verdade um poema, do qual o músico se encantava desde a adolescência, eternizando um de seus poetas favoritos (Friedrich Schiller) em uma das mais belas sinfonias de todos os tempos, a 9ª, conhecida também como Ode a Alegria.

 

Schiller & Beethoven

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Uma excelente fonte de inspiração, a um novo ano que se inicia cheio de júbilo e renovação!

 

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!
(Barítonos, quarteto e coro)
Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Teus encantos unem novamente
O que o rigor do costume separou.
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu vôo suave.
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!
Sim, também aquele que apenas uma alma,
possa chamar de sua sobre a Terra.
Mas quem nunca o tenha podido
Livre de seu pranto esta Aliança!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos dá beijos e as vinhas
Um amigo provado até a morte;
A volúpia foi concedida ao humilde
E o Querubim está diante de Deus!
(Tenor solo e coro)
Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóboda celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória.
(Coro)
Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóboda estrelada
Deve morar o Pai Amado.
Vos prosternais, Multidões?
Mundo, pressentes ao Criador?
Buscais além da abóboda estrelada!
Sobre as estrelas Ele deve morar.

O que você aprendeu em 2016?

Como um Blog de Poesia Filosófica, buscamos sempre aprender com os versos… e esses profundos trechos da Escola Sufi nos ensinam alguns vislumbres do maravilhoso mistério que é a Vida.

E você o que aprendeu neste ano que passou?

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Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Não durmas,
senta com teus pares

A escuridão oculta a água da vida.
Não te apresses, vasculha o escuro.
Os viajantes noturnos estão plenos de luz;
não te afastes pois da companhia de teus pares.

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.

Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.

Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança.


Ontem à noite, confidencialmente, eu disse a um velho sábio:
– Não me esconda nada dos segredos do mundo!
Muito docemente, ele me disse ao ouvido:
– Chut! Podemos compreender, mas não exprimir!

Quero fugir a cem léguas da razão,
Quero da presença do bem e do mal me liberar.
Detrás do véu existe tanta beleza: lá está meu ser.
Quero me enamorar de mim mesmo, ó vós que não sabeis!

Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.
E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.
Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,
Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.

Ele chegou… Chegou aquele que nunca partiu;
Esta água nunca faltou a este riacho
Ele é a substância do almíscar e nós o seu perfume,
Alguma vez se viu o almíscar separado de seu cheiro?

Se busco meu coração, o encontro em teu quintal,
Se busco minha alma, não a vejo a não ser nos cachos de teu cabelo.
Se bebo água, quando estou sedento
Vejo na água o reflexo do teu rosto.

Sou medido, ao medir teu amor.
Sou levado, ao levar teu amor.
Não posso comer de dia nem dormir de noite.
Para ser teu amigo
Tornei-me meu próprio inimigo.

Teu amor me tirou de mim.
De ti, preciso de ti
Noite e dia, eu queimo por ti.
De ti, preciso de ti.

Não posso dormir quando estou contigo
por causa de teu amor.
Não posso dormir quando estou sem ti
por causa de meu pranto e gemidos.
Passo as duas noites acordado
mas, que diferença entre uma e outra!

Não temos nada além do amor.
Não temos antes, princípio nem fim.
A alma grita e geme dentro de nós:
– Louco, é assim o amor.
Colhe-me, colhe-me, colhe-me!

À noite, pedi a um velho sábio
que me contasse todos os segredos do universo.
Ele murmurou lentamente em meu ouvido:
– Isto não se pode dizer, isto se aprende.

A fé da religião do Amor é diferente.
A embriaguez do vinho do Amor é diferente.
Tudo que aprendes na escola é diferente.
Tudo que aprendes do Amor é diferente.

– Vem ao jardim na primavera, disseste.
– Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?
E, se estás aqui, para que preciso disso?

 

Jalaluddin Rumi

 

Poema do Amigo Aprendiz – Fernando Pessoa

Poético e cheio de cores características o Natal parece trazer consigo uma atmosfera de união… familiares se reúnem, amigos se encontram e até mesmo corações desconhecidos se enchem de calor.

Nesta edição o Acrópole Poética compartilha um pouco de Amizade:

natal-amizade

Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso: é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo de acertar nossas distâncias


Fernando Pessoa