LETRAS DA PRIMAVERA 2017

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Anualmente, a Nova Acrópole Brasil Norte realiza o Concurso Letras da Primavera, incentivando a criação poética como busca e expressão do melhor em cada ser humano.

 

No momento em que a natureza floresce, publicamos os 10 poemas vencedores, um convite a viver imagens poéticas e a sonhar com o Bem, o Belo e o Justo.

 

Conheça nosso trabalho acessando o site www.acropole.org.br

 

 

Primeiro Lugar: Avante!, de Caroline Pilz, Filial Cuiabá

 

Meu caro Sancho Pança..

 

Se ao mundo pudesse contar,

Das belas batalhas que vejo por dentro,

Quando me permito lapidar,

e lançar-me ávido aos moinhos de vento.

 

Se ao mundo pudesse contar,

Das ideias que forjam sentimentos,

Das convicções nascidas do sonhar,

Quando o impossível é apenas questão de tempo.

 

Poderia contar sobre uma estrela inalcançável,

que guiou homens,

às mais ardentes batalhas,

transformando camponeses em nobres,

pelo bravio empunhar da espada.

 

Contaria do ser das coisas,

E do mistério oculto em cada detalhe,

das singelas sutilezas da vida,

da profundidade presente nos olhares.

 

Falaria de bravura, justiça, honradez,

Daqueles que o mundo não desfez,

Do que há de eterno e imortal,

Da grandeza de unir-se a um ideal.

 

Ah, se o homem em seu despertar de consciência,

Pudesse religar-se a cada ser em essência.

Vibrariam todos em uma única canção,

Saberiam o sentido sublime da devoção.

 

Mas, sei que gigantes ainda nos assombram,

e que a luta há de ser eterna,

mas para quem vive uma saga heroica,

não há conquista sem a necessária guerra.

 

Pois que peço coragem nobre escudeiro,

Em prosseguir firme neste Sendero,

E perceber quão grande um homem pode ser,

Quando se lança à alma por inteiro.

 

Sei que é cedo, caro amigo,

E tarda o despertar humano…

De escuridão fizemos o mundo,

e cabe a nós purificar o engano.

 

Enquanto houver uma chama acessa,

Indicando o caminho a trilhar,

Mesmo que estreita seja a senda,

Esperança não há de faltar…

 

E sei, dentro de mim, tão claro como o próprio dia,

Que o sol da vida, fonte que tudo anima,

vai tocar aos homens-coração,

e do deserto nascerão novas flores, perfumes, primaveras,

anunciando uma nova era, feita de amor e devoção.

Avante!

 

 

Segundo Lugar: Amor, o Princípio da vida, de Caio Victor, Filial Sobradinho

 

Há coisas que podemos dar sem perder

e coisas que perdemos por não dar

A felicidade, o amor, não foram feitos para se reter,

pois só se completam no ato de compartilhar.

 

Jamais sentiu quem os declarou ser uma invenção,

e mentiu quem disse serem um engano:

é dividindo o que tem de bom no coração

que o homem multiplica e sente o que é ser humano.

 

Basta em ti lançares um pouco de luz interior,

e com os olhos que tens, poderás reparar

que a vida é toda vestida de amor,

e o tempo, de oportunidades de amar.

 

Se cantarolando um jardineiro planta uma flor

E em silêncio Deus a faz crescer

Assim espero que vosso jovem amor

Como impávida rosa, venha florescer.

 

Tal como um poema decanta a cada dia

na alma d’um pobre escritor

Semeia tua nobre semente com calma e alegria

pois logo haverá de aflorar em esplendor.

 

Por isso, caros amigos

o plantio primeiro, os frutos depois

Se de um, Deus fez dois

Sua intenção não foi dividir.

Algo nos conta, pois,

que assim fez para os unir.

 

E se um dia o outono vier,

e o frio da noite te fizeres esquecer

Do fogo que hoje aceso

arde luminoso no fundo do teu ser

Lembra-te que não importa onde estiver

essa verdade ainda poderá ser lida:

 

É da união que nasce o amor,

e do amor que nasce a vida.

 

 

Terceiro Lugar: Presente Celeste, de Jennyfer Arantes Silveira, Rio Verde

Caminhando nos labirintos da vida

Ao olhar para o céu avistei uma estrela

De um azul tão profundo,

tão brilhante, tão bela.

Senti naquele momento

que não estava sozinha,

que a vida não era vazia,

que eu devia caminhar até ela…

 

Ó céus, o que me destes?

Incendiou as chamas do meu coração

Trouxe-me o maior dos presentes:

Um sentido, Mestres, um Ideal.

Agora, já não olho mais para baixo

Seguro nas mãos do medo

e com tuas armas mágicas,

enfrento as batalhas.

 

Tens me mostrado

os vícios da personalidade

são tantos, tantos…

Mas quão nobre são os poderes

da Beleza, da Justiça, e da Bondade.

 

Em alguns momentos me senti GRANDE!

Mas mostraste minha pequenez

Lá estava a verdade!

Veio então a dor, a sagrada dor do guerreiro

e antes que eu pudesse desanimar

Trouxe-me sonhos tão profundos

alimentando minha alma

para que eu jamais deixasse de lutar.

 

Tens me mostrado a magia da vida

Que por trás de cada ser

Existe uma essência tão linda

Que vai além

do que nossos olhos podem ver.

 

São tantos os mistérios…

Mas tens me dado respostas

Sinto-me cada vez mais forte

Capaz de construir está ponte

que ligará os homens aos céus.

 

Já não sou mais a mesma,

já não pertenço somente a mim,

pois, selei o compromisso com a estrela!

Agora, está claro, consigo compreender

Discípula é o que me cabe Ser.

 

Nesta incansável busca pela verdade

Comprometo-me a construir, dar continuidade

Porque não há nada maior

do que trabalhar, doar e servir a humanidade!

 

 

As 7 poesias a seguir estão em ordem alfabética dos títulos:

 

A Natureza, de Marcia Regina, Filial Asa Sul

 

Sou feliz quando aprecio a natureza como se ela fosse um mito;

Quando em estado de contemplação a ela me integro plenamente;

Quando percebo a leveza das plumas que flutuam no ar.

Plumas que o vento frio do inverno carrega livremente, em direção ao infinito.

 

Sou feliz quando sinto o encantamento das estrelas diante do céu;

Quando vejo a chuva trazendo consigo a alegria de uma farta colheita;

Quando ouço o canto dos pássaros anunciando uma nova estação.

Pássaros que transportam os pólens, cumprindo, assim, o seu papel.

 

Sou feliz quando observo a dança das folhas das árvores na sintonia da canção.

Folhas que não se desbotam com o sol escaldante do verão, mas que se curvam diante do outono, reverenciando a terra;

Folhas que, como um manto sagrado, protegem aquela que lhes gerou.

 

Sou feliz quando contemplo, na primavera, as flores do jardim da vida.

Flores que alegram o meu coração e que elevam a minha alma, demonstrando a presença de Deus em mim nessa lida.

 

Sou feliz quando concebo a natureza como meu ninho original.

 

 

Asas, de Fátima Alencar, Filial Natal

 

Foram tantos os sonhos que sempre ruiam…

Foram tantos momentos de longa e cruel agonia.

Agora, só restam feridas, profundas cicatrizes.

 

Sobrevivi.

 

Onde os sonhos? Onde o riso? Onde o aceno final?

Aahh… Tudo ilusão! Apenas vazio no silêncio real.

A luz incomoda, não há mais amarras, só cicatrizes eu sou.

Não!

Eu sou mais que cicatrizes!

Estou em metamorfose, em apertado ar rarefeito, em tempo mago sem fim

Em neoforma me encanto, em sacro espaço me vejo

Há algo novo que vibra, há algo velho que acorda

Há algo antigo que lembra, há algo belo, mutante,

Nascendo dentro de mim!

 

Na frente, o céu, o infinito, o macro e o micro em espaço / tempo sem fim;

No perdão, toda a beleza do amor em resgate de mim!

 

No corpo cansado, feridas; na alma desperta, a espada de fogo é erguida.

A hora é chegada, qual fênix de ouro das cinzas renasço!

 

A luz dói, a visão é turva, é preciso subir

No difícil emergir, amor e perdão vem curando feridas, libertando o porvir.

De repente, sinto algo novo, vejo algo belo, algo que lembra um querubim:

Eu estou vendo asas nascendo em mim!!!

Elas se movem, em graça e beleza, e me elevam suave no ar!

Na força do perdão, desafio a gravidade, busco o mistério, a ascendente espiral.

Asas eu tenho, agora posso voar!

 

Agora sou céu, sou luz, sou infinito, desejada liberdade!

Sou inteira, sou frações, sou amor a harmonizar,

Sou leve, sou linda, sou livre

Sou firme mão estendida para muitas levantar…!

 

Venham comigo voar!

 

 

Beleza, de James Moraes, Filial Taguatinga

 

Tudo o que exprime a ideia

Se mostra ao Mundo com Beleza.

Vem do alto e aqui se transforma

O intangível vem em sua forma

Expressa pela consciência da Natureza

Sem exageros ou escassez.

 

Busque-a em tudo que fizerdes

Encontre-a no que se passa à Tua frente

Na singeleza de um sorriso

Numa música que te eleva ao Paraíso,

Pois a Beleza é o arquétipo presente

Como uma ponte que nos liga ao Sagrado.

 

Há flores que revestem o jardim

Que podem ser cultivadas em noss’Alma

Em forma de gestos e boa-vontade

Dedicados à Humanidade

Como numa grande roda de Valsa

De Almas que bailam na eternidade.

 

 

Caminhante, de Alinalde Lima, Filial Lago Norte

 

Ó aprendiz do caminho,

A dinâmica da vida é ação,

Sacudir o terreno sombrio,

Que sufoca o fulgor do coração.

 

Até que percebas o seu clamor,

Quantos enganos e desenganos,

Quanta heresia, resistência, dor…

Fábricas de ilusões, desatinos e danos.

 

Como o jardim descuidado,

Se não regas, revolves e renovas a terra,

Se não podas os excessos de dados,

Que polui o espaço de frívolas ervas,

Como poderá florir a beleza e a harmonia?

 

Assim, é o jardim secreto da Alma,

Que sob os escombros da ignorância,

Deseja romper os condutos do entusiasmo,

Da alegria, da bem-aventurança,

E, sem reserva, dançar a sua dança.

 

Acorda! Caminhante,

Ouve com toda a atenção:

Torna-te íntimo de teu coração,

Lá está a força sagrada da vida,

Que precisa fluir e, sem descanso,

Glorificar tuas idas e vindas.

 

A soma de pequenas ações,

E vontade aliada à veracidade,

Pai-Mãe da convicção:

Desperta os raios da bondade,

Cume da verdadeira liberdade.

 

Caminhante:

Eis a terna atmosfera

Da eterna primavera!

 

 

Identidade, de Maria Clara Duarte, Filial Águas Claras

 

Se o que há em mim

de mais precioso,

divino, eterno,

 

É esta consciência, com a qual só O vislumbro,

 

Se este corpo, que me carrega,

e as emoções que se agitam em frio inverno…

 

Se tudo o que tenho é emprestado,

tomado de algum lugar da vida,

 

Quem sou eu? Quando a Vida é encerrada,

o que sobra?

Como devolver?

 

Se não há parte que me reste,

grão que me pertença,

entrega que se baste?

 

Como ser generosa se não tenho

nem tive nada que é só meu?

 

Nem esta forma, que não reuni,

nem os pensamentos , tecidos e enlaçados

pela matéria enganosa do ar…

Nada disso é meu!

Não tenho em que me apoiar.

 

E o mundo se estende como pradaria,

repleta de vida partilhada.

 

Não bem partilha, pois partilha quem o tem,

e quem dirá que as ondas possuem o mar?

 

Pensar quem sou é penetrar num oceano sem praias.

E o coração, angustiado, se contrai,

como um punho vazio,

ou como quem se dobra em confusão e frio.

 

Por que apavora  perder o que nunca tive?

Por que o perderia agora?

 

Ainda assim, sinto esperança,

ao entrever o fio que enlaça o Universo:

 

A missão de ofertar sem desejo que o necessitem,

nem medo da carência ou ânsia pelo excesso.

 

Em poder optar por dar-me,

reside meu eu humano.

 

E, no fundo, secretamente sei,

que, quando abrir mão de ter um eu,

possuirei em mim todas as coisas.

 

E serei, não compartilhado,

mas Indivíduo completo, enfim.

Pequeno, imenso, soberano.

Uno.

 

 

Mundo Dual, de Nirvana Ribeiro, Filial Porto Velho

 

Num mundo dual

Como saber o que é ideal?

Qual lado escolher

Quando não se tem o saber!

 

De que adianta riquezas e poder

Se a alma está vazia…

Querer respostas e não compreender

Está tudo diante de você

 

Então vem ela: A filosofia

Como um feixe de luz

Rasgando a escuridão

Revelando ao homem coisas do seu coração

 

Sobre Karma e Dharma

Kuravas e Pandavas

O homem luta consigo

Descobre que é seu pior inimigo

 

Quanto mais conhecimento

Maior sua evolução

Menos importância ao quaternário

Mais tríade em ação.

 

 

 

O Homem e o Pião, de Jovina Gomes Benigno, Filial Fortaleza Sul

 

Para ser um homem humano

Há de cuidar de sua alma ser virtude e união

Fazendo da educação seu guia e seu quinhão

Educando dia- a- dia sua mente e coração.

Falando em educação sempre há mais novidades:

Que se ensina e se aprende,

que não se acha é busca daquela chama pequena

que corre viva e serena,

tirando da escuridão a alma desencontrada.

 

Antes, só na mocidade a novidade floria,

Hoje aflora em estações diversas de nossa vida

No verão e no inverno, no outono ou primavera.

O saber é a quimera que aos poucos se realiza.

Pois sabido é que ser jovem, ter vivido não altera,

Tanto faz que sejam anos ou quem sabe gerações.

 

Pois ser jovem é se aceitar,ser feliz como se é

e seguirmos em nosso Darma, sem desvio e com fé,

não sofrer o que passou nem chorar o que chegou.

E sempre ser criador, mesmo sendo criatura.

 

Aprendi a ser feliz por minha necessidade

Aprendi que ter amor, requer trabalho e amizade.

Uma certa devoção, requer ouvir a cabeça

E também o coração.

Requer amor a si mesmo, ao outro e à Natureza.

 

Pois tenham sempre a ciência

Que é tudo um só Ser, é única a existência.

Mas antes que a gente esqueça de que o mundo é um pião

Que desde o primeiro dia foi jogado em nossa mão

Lembremos de um detalhe quase que despercebido

Que Jesus com um gemido, como numa extrema-unção,

Reafirmou que sua vida não era sua,

Era D’Ele numa grande aceitação

de que a vontade de Deus é a que tem no pião.

 

Não estranhe a estranha ordem

Que dei aqui a meus versos,

falando de darma e Deus rodando um certo pião.

Não me faça objeção antes que eu possa explicar

Pois muita leitura há nas lições que tem o mundo

Só não vê quem não quiser quem não souber enxergar.

 

De tudo na vida há prá melhorar nosso dom

que é o de educar nossa alma incabada.

Mas é urgente cuidar

Pois ás vezes a idade pode acabar sem tardar.

Melhor é achar nosso centro sem que o cimento endureça,

Prá não se quebrar a vida sem que o espírito entristeça.

Falar nos faz muito bem ouvir nos faz muito mais,

desde que se fale o certo

Aquilo que vem soprando

De nossa Alma mais perto.

 

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Homenagem ao Dia dos Pais

 

Em homenagem ao Dia dos Pais, o Acrópole Poética traz estes belos versos de Rudyard Kipling – ensinamentos cheios de valor de um pai para seu filho – acompanhados por belíssimas obras de Daniel Gerhartz:

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Se

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

 

Rudyard Kipling

 

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Ser ou Não Ser?

 

 

Ser ou não ser, eis a questão.
O que é mais nobre? Sofrer na alma
As flechas da fortuna ultrajante
Ou pegar em armas contra um mar de dores
Pondo-lhes um fim? Morrer, dormir
Nada mais; e por via do sono pôr ponto final
Aos males do coração e aos mil acidentes naturais
De que a carne é herdeira, num desenlace
Devotadamente desejado. Morrer! Dormir; dormir
Dormir, sonhar talvez: mas aqui está o ponto de interrogação;
Porque no sono da morte, que sonhos podem assaltar-nos
Uma vez fora da confusão da vida?
É isso que nos obriga a reflectir: é esse respeito
Que nos faz suportar por tanto tempo uma vida de agruras.
Pois quem suportaria as chicotadas e o escárnio do tempo
As injustiças do opressor, as afrontas dos orgulhosos,
A tortura do amor desprezado, as demoras da lei,
A insolência do oficial e os pontapés
Que o paciente mérito recebe do incompetente
Quando o próprio poderia gozar da quietude
Dada pela ponta de um punhal? Quem tais fardos suportaria
Preferindo gemer e suar sob o peso de uma vida fatigante
A não pelo medo de algo depois da morte
Esse país desconhecido de cujos campos
Nenhum viajante retornou, e que nos baralha a vontade
E nos faz suportar os males que temos
Em vez de voar para o que não conhecemos?
Assim a consciência nos faz a todos cobardes
E assim as cores nascentes da resolução
Empalidecem perante o frouxo clarão do pensamento
E os planos de grande alcance e actualidade
Por via desta perspectiva mudam de sentido
E saem do reino da acção.

William Shakespeare, “Hamlet”

A Apolo

apolo

 

A Apolo

Pressinto em mim o emergir de Delos,
sagrada ilha flutuante
a quem nenhuma corrente
logrou reter, em seus elos…

Poseidon, do Oceano Profundo,
Soberano das águas do mundo,
permitiu que ela em mim aflorasse,
concedeu-a como fosse um dom.

Minha Alma, Delos, veio à tona…
Coração por trás do coração,
vibração que ao terrestre impulsiona,
e que o Deus, em mim, leva à ação.

As dores de Leto, à palmeira enlaçada,
são sinais da Luz que aspira a nascer…
Em Delos, o Deus anuncia a chegada,
das dores mais árduas, o parto do Ser…

Mas eis que Hera sempre exige a espera:
pois o protocolo da Deusa,
severa mãe de todo Herói,
mil provas enumera antes do fim…
Pequenas provas ante o herói do mito,
mas quase um infinito para mim…

Enquanto o nascimento não se opera,
sonho com a luz do Hiperbóreo, que virá,
sonho com o Templo que Ele erguerá,
tornando Delos terra nobre e sagrada,
ponto central de todas energias,
ponto final de todas caminhadas.

A Serpente que me ronda, incansável,
Grandiosa Píton, será submetida…
Ante a Luz, de fugaz, será estável,
E os seus vapores serão
para sempre, desde então,
fonte de inspiração em minha vida.

E quando o Deus se afastar,
navegando nos céus, a migrar
às distantes terras frias,
ao Seu lado, de um outro calor vou provar.
E quando Ele voltar, em seu Cisne Solar,
cálida, a Alma emprestará calor ao Dia…

E dançarei com as Musas no Helicon,
e a voz do Deus desdobrar-se-à em sons,
numa espiral de harmonia, rumo as céus,
E, em Castália, baixarei meus véus
e aplacarei a sede da minha alma
ouvindo as vibrações da Voz do Deus.

Tudo isso serei eu, quando, cumpridos
todos os justos desígnios de Hera,
tiver findado a dolorosa espera…
Vencido o algoz, as trevas da ilusão,
concluído o rito em Delos-coração,
virá à luz, em mim, o amado Deus…

E, como proclamado desde as eras,
o tempo explodirá em primaveras…

Profª: Lucia Helena Galvão

Foto: Leandro Moraes

Poesia Sufi – Rumi

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Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Não durmas,
senta com teus pares

A escuridão oculta a água da vida.
Não te apresses, vasculha o escuro.
Os viajantes noturnos estão plenos de luz;
não te afastes pois da companhia de teus pares.

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.

Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.

Eros e Psique

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Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão , e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

“Alegra-te”

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Alegra-te

 

Se tu és pequeno, alegra-te,

para que tua pequenez sirva de contraste

a outros no universo, porque essa pequenez

constitui a razão essencial da tua grandeza,

porque para ser grande,

há necessidade que tu sejas pequeno,

como a montanha para crescer,

necessita subir entre as colinas, lombas e os morros.

Se és grande, alegra-te,

porque o invisível se manifestou em ti

de maneira mais excelente,

porque és um êxito do artista eterno.

Se és saudável, alegra-te,

Porque em ti as forças da natureza

Tem chegado à ponderação e à harmonia.

Se é enfermo, alegra-te,

porque lutam em teu organismo

forças contrárias que acaso buscam

uma resultante de beleza,

porque em ti se ensaia esse divino alquimista

que se chama dor.

Se és rico, alegra-te,

Por toda a força que o destino

Tem posto em tuas mãos

Para que a derrames…

Se pé pobre, alegra-te,

porque tuas asas serão mais ligeiras

porque a vida te sujeitará menos,

porque o Pai realizará em ti

mais diretamente que no rico

o amável prodígio do pão cotidiano.

Alegra-te, se amas;

por que serás mais semelhante a Deus que os outros.

Alegra-te, se és amado;

porque há nisso

uma predestinação maravilhosa.

Alegra-te se és pequeno;
alegra-te se és grande;
alegra-te se tens saúde;
alegra-te se a perdeste;
alegra-te se és rico;
se és pobre alegra-te;
alegra-te se te amam;
se amas alegra-te.
Alegra-te sempre, sempre, sempre.

 
(Amado Nervo)

“Ode à Alegria” – Friedrich Schiller

Você sabia que a a letra da música presente na 9ª Sinfonia de Beethoven é na verdade um poema, do qual o músico se encantava desde a adolescência, eternizando um de seus poetas favoritos (Friedrich Schiller) em uma das mais belas sinfonias de todos os tempos, a 9ª, conhecida também como Ode a Alegria.

 

Schiller & Beethoven

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Uma excelente fonte de inspiração, a um novo ano que se inicia cheio de júbilo e renovação!

 

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!
(Barítonos, quarteto e coro)
Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Teus encantos unem novamente
O que o rigor do costume separou.
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu vôo suave.
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!
Sim, também aquele que apenas uma alma,
possa chamar de sua sobre a Terra.
Mas quem nunca o tenha podido
Livre de seu pranto esta Aliança!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos dá beijos e as vinhas
Um amigo provado até a morte;
A volúpia foi concedida ao humilde
E o Querubim está diante de Deus!
(Tenor solo e coro)
Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóboda celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória.
(Coro)
Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóboda estrelada
Deve morar o Pai Amado.
Vos prosternais, Multidões?
Mundo, pressentes ao Criador?
Buscais além da abóboda estrelada!
Sobre as estrelas Ele deve morar.

O que você aprendeu em 2016?

Como um Blog de Poesia Filosófica, buscamos sempre aprender com os versos… e esses profundos trechos da Escola Sufi nos ensinam alguns vislumbres do maravilhoso mistério que é a Vida.

E você o que aprendeu neste ano que passou?

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Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Não durmas,
senta com teus pares

A escuridão oculta a água da vida.
Não te apresses, vasculha o escuro.
Os viajantes noturnos estão plenos de luz;
não te afastes pois da companhia de teus pares.

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.

Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.

Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança.


Ontem à noite, confidencialmente, eu disse a um velho sábio:
– Não me esconda nada dos segredos do mundo!
Muito docemente, ele me disse ao ouvido:
– Chut! Podemos compreender, mas não exprimir!

Quero fugir a cem léguas da razão,
Quero da presença do bem e do mal me liberar.
Detrás do véu existe tanta beleza: lá está meu ser.
Quero me enamorar de mim mesmo, ó vós que não sabeis!

Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.
E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.
Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,
Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.

Ele chegou… Chegou aquele que nunca partiu;
Esta água nunca faltou a este riacho
Ele é a substância do almíscar e nós o seu perfume,
Alguma vez se viu o almíscar separado de seu cheiro?

Se busco meu coração, o encontro em teu quintal,
Se busco minha alma, não a vejo a não ser nos cachos de teu cabelo.
Se bebo água, quando estou sedento
Vejo na água o reflexo do teu rosto.

Sou medido, ao medir teu amor.
Sou levado, ao levar teu amor.
Não posso comer de dia nem dormir de noite.
Para ser teu amigo
Tornei-me meu próprio inimigo.

Teu amor me tirou de mim.
De ti, preciso de ti
Noite e dia, eu queimo por ti.
De ti, preciso de ti.

Não posso dormir quando estou contigo
por causa de teu amor.
Não posso dormir quando estou sem ti
por causa de meu pranto e gemidos.
Passo as duas noites acordado
mas, que diferença entre uma e outra!

Não temos nada além do amor.
Não temos antes, princípio nem fim.
A alma grita e geme dentro de nós:
– Louco, é assim o amor.
Colhe-me, colhe-me, colhe-me!

À noite, pedi a um velho sábio
que me contasse todos os segredos do universo.
Ele murmurou lentamente em meu ouvido:
– Isto não se pode dizer, isto se aprende.

A fé da religião do Amor é diferente.
A embriaguez do vinho do Amor é diferente.
Tudo que aprendes na escola é diferente.
Tudo que aprendes do Amor é diferente.

– Vem ao jardim na primavera, disseste.
– Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?
E, se estás aqui, para que preciso disso?

 

Jalaluddin Rumi